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A riqueza da miséria do agronegócio

Rondônia, o grande estado do agronegócio, produtor de alimentos, exportador de grãos, carne bovina e peixes de cativeiro, bate recordes sucessivos com números tão exuberantes quanto delirantes, em especial para aqueles que jamais vão ver um centavo dessa riqueza. Para complicar tudo, o IBGE escancara o crescimento em mais de 50{b160333f6ceb1080fb3f5716ac4796e548b167cdf320724da9e478681421f6da} dos miseráveis em todo o país, com maior taxa na Região Norte. O vigoroso estado-produtor, é na realidade o estado-corredor, aonde milhões de toneladas de alimentos atravessam Rondônia pela BR-364, para nos abastecer e também levar alimentos para o Acre, Amazonas, Roraima e Venezuela. Gigantesco, incomensurável desperdício de oportunidades. Sim, olhamos isto passivamente há décadas. Mas o governo pensa diferente. Por favor, tire as crianças da sala e não leia em voz alta. O conteúdo também pode afetar pessoas sensíveis.

ECONOMIA PRIMÁRIA | O PIB de Rondônia, que significa a soma de todas as riquezas produzidas por todos os agentes econômicos em um ano, é de R$ 36 bilhões. O PIB do agronegócio responde por cerca de 11{b160333f6ceb1080fb3f5716ac4796e548b167cdf320724da9e478681421f6da} desse valor, ou seja, quase R$ 4 bilhões. Nesta conta entram como dominantes a produção de grãos, carne e peixes, mas também tem a produção de leite, café, mandioca e uma série de outros produtos agrícolas. Lembro e alerto que exportamos matérias-primas agropecuárias com baixíssimo ou nenhum valor agregado, o que significa que o que faturamos é uma quinta parte do que poderíamos. Ou deveríamos? Enfim, de tudo que produzimos, cerca de 11{b160333f6ceb1080fb3f5716ac4796e548b167cdf320724da9e478681421f6da} vem do campo. No país, o agronegócio responde por cerca de 5{b160333f6ceb1080fb3f5716ac4796e548b167cdf320724da9e478681421f6da}. Em Rondônia o setor de serviços é dominante, com mais de 60{b160333f6ceb1080fb3f5716ac4796e548b167cdf320724da9e478681421f6da} de participação. Mas o governo insiste que somos um estado agrícola, para não revelar a total dependência econômica sobre a folha de salários (enquadrado como serviço) de todo o setor público (municipal, estadual, federal). Enfim, somos uma economia anêmica, com uma população anêmica, fruto de um governo anêmico, apesar de toda a propaganda oficial. Vamos colocar uma lupa nisto?

MILAGRE DOS PEIXES  |  Incensado pelo governo de Rondônia como uma das nossas riquezas, o tambaqui tem uma história no mínimo estranha, para ficar no mínimo mesmo, como veremos. Segundo dados oficiais divulgados pelo governo neste ano que finda, Rondônia deve produzir 150 mil toneladas de peixes e, para 2018, a vontade do governador é chegar a 250 mil toneladas. Confúcio é poderoso, pois querer e prever que a produção do estado aumente cerca de 70{b160333f6ceb1080fb3f5716ac4796e548b167cdf320724da9e478681421f6da} em um ano, é algo próximo do milagre dos peixes. Não posso duvidar, pois o governador já foi até considerado candidato à presidência da república, portanto, o homem deve entender mesmo de milagres. Tanto que toda a mídia do estado só fala dos números “exuberantes” da nossa economia. Claro, é só ver a digital da propaganda oficial em toda ela. Além disso, poucos ou nenhum debruça-se, de fato, sobre números ou faz uma análise fria do que eles representam. Não interessa. Não se interessam.

TONELADAS & BILHÕES  |  Se produzimos 150.000 toneladas de peixes, ao preço pago ao produtor no valor de R$ 5,00/kg (quando pagam), temos R$ 750 milhões. Mas… o tambaqui processado, tem preços de mercado bem interessantes, de acordo com um grande distribuidor: R$ 16,30/kg eviscerado (sem as tripas); R$ 33,90/kg filé e R$ 37,90/kg costela palito, uma iguaria. Vamos deixar a conta, por baixo, a R$ 30,00/kg do tambaqui em cortes, vendidos no varejo. Considerando as 150.000 toneladas, temos o resultado impressionante de R$ 4,5 bilhões, ou seja, mais do dobro do valor pago pela carne bovina exportada, que certamente terá um valor superior quando também terá cortes para venda no varejo, nos supermercados nacionais e internacionais. Enfim, produzimos para exportar empregos, renda, riqueza. Só que dos R$ 4,5 bilhões, ficam “aqui” apenas os R$ 750 milhões. Ou apenas uma parte.

BOIADA DE OURO  |  Milagres à parte, vamos aos números da pecuária. Segundo dados oficiais divulgados pelo governo, até novembro deste ano que finda, Rondônia exportou 138 mil toneladas de carne, que renderam US$ 511 milhões. Pela cotação do dólar de hoje R$ 1,7 bilhão. Anotado? Somente em exportação. E o mercado interno? Mais quantos milhões? Sem dados oficiais. Uma coisa é certa, os 14 milhões de cabeças de gado fazem a fortuna de poucos milhares de produtores em condições de suportar os custos do ciclo longo da pecuária. Além disso, também exportamos bois inteiros e cortes de base, tudo para ser processado, embalado e vendido por preços de três a cinco vezes superiores aos pagos na origem. Há uma década, tínhamos uma planta frigorífica preparada para exportar cortes embalados diretamente para gôndolas de supermercados na Europa. A JBS comprou. E fechou.

FORTUNA EM GRÃOS  |  Com uma produção de grãos em 2017 próxima dos 2 milhões de toneladas, a fronteira agrícola avança a passos largos para pouco mais de mil proprietários rurais. Sim, das quase 130 mil propriedades rurais, cerca de 1{b160333f6ceb1080fb3f5716ac4796e548b167cdf320724da9e478681421f6da} produz grãos. E, destes, menos de uma centena são de fato grandes proprietários rurais. Pela propaganda do governo, este número pode parecer diferente. Mas não é. A maior parte das propriedades rurais é de subsistência, sistema econômico baseado em atividades rudimentares com o único objetivo da autossuficiência, produzindo apenas o necessário para o consumo imediato. Ou seja, para comer e não morrer. Nada além disso. As imagens da TV parecem mostrar o contrário. É o poder da propaganda. A riqueza dos grãos está nas mãos de meia dúzia.

EXPORTAMOS EMPREGOS  |  O que interessa é o dado, relevante e angustiante, divulgado pelo IBGE neste mês de dezembro que finda: temos 600 mil pobres e quase 200 mil na extrema pobreza. Com produção e exportação de carne bovina em R$ 1,7 bilhão mais os R$ 750 milhões em peixes e outros R$ 1,5 bilhão de grãos, temos aí o PIB agropecuário. A conta não fecha para a esmagadora maioria dos 130 mil proprietários rurais. Para onde está escorrendo tanta riqueza? Na exportação de empregos e renda medidos em toneladas e bilhões, e outros milhões nas mãos de poucos em Rondônia. A pecuária, atividade concentradora de renda, beneficia alguns poucos milhares. Na aquicultura, o custo de produção é superior a R$ 5,00/kg do peixe. Sim, o custo é praticamente o mesmo do preço de venda pago ao produtor. Aonde está a lógica? O mercado não tem lógica e o produtor não faz conta. Se fizer pira. Aqueles que fizeram, abandonaram a atividade e fecharam os ouvidos para a propaganda do governo.

DOENÇA HOLANDESA  |  Quanto maior a produção de pescados em Rondônia, maior a miséria, porque quem ganha mesmo são os atravessadores, aqueles que buscam o peixe vivo na propriedade rural, e revendem não eviscerados às indústrias, em sua maioria fora de Rondônia, que colocam outro tanto de margem em cima para ganhar. Assim é na pecuária e na produção de grãos. Sofremos em carne viva de algo semelhante ao que os economistas denominaram “Doença Holandesa” nos anos 80, que significa produção e exportação intensiva de matérias-primas, levando à baixa industrialização ou até a desindustrialização. No longo prazo, há notável inibição ao processo de desenvolvimento econômico. Isto está nas ruas e nos números do IBGE. Nosso estado é sim miserável, pois quase 50{b160333f6ceb1080fb3f5716ac4796e548b167cdf320724da9e478681421f6da} ou é pobre ou está na extrema pobreza.

PRODUTOR X CORREDOR  |  Quer mais? Entre em qualquer supermercado de Rondônia e observe os produtos à venda: em sua esmagadora maioria, alimentos importados, seja in natura, até os industrializados. Desde FLV (frutas, legumes e verduras) não produzidos localmente, até minimamente processados, processados e ultra-processados. E não me venham com a conversinha tola que produzimos alface e cheiro-verde. Isto é ridículo. Com mais de 100 mil agricultores familiares abandonados, e importando maciçamente alimentos de mesa, é certo que este modelo ajustado entre governo, atacadistas e supermercadistas, está matando pessoas em Rondônia. De fome, miséria. O estado-produtor só existe na propaganda do governo. O estado-corredor nos esmaga diariamente ali na BR-364. Em 2018 teremos eleições, mas não será diferente, pois os candidatos vão continuar de olhos fechados para esta tragédia. Eles moram na propaganda do governo.

 

Por – José Armando Bueno,  jornalista e editor de  A Capital.

 

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