Rondônia,18/11/2018
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Profissionais conhecem experiências do projeto Balde Cheio em Rondônia

Visitantes conferem vantagens da tecnologia Compost Barn em Propriedade Rural do município de Cacoal (RO)

Pesquisadores, técnicos e jornalistas da Embrapa do Acre, Rondônia, Amazonas, Roraima, Tocantins, Maranhão, Piauí e São Paulo, além de professores e alunos da Universidade Federal do Acre (Ufac), visitaram propriedades rurais do interior rondoniense, entre 2 e 5 de agosto. A comitiva percorreu os municípios de Ministro Andreazza, Rolim de Moura, Cacoal e Vilhena para conhecer como a metodologia do projeto Balde Cheio em Rede tem sido aplicada, com foco na ampliação das ações.

Executado pela Embrapa, em parceria com outras instituições, há duas décadas o Balde Cheio capacita técnicos para a assistência continuada a produtores rurais na adoção de tecnologias sustentáveis e ferramentas de gerenciamento das propriedades, com a finalidade de aumentar a produtividade e eficiência dos sistemas de produção de leite e incrementar a renda das famílias. Entre as demandas atendidas estão a elevação do padrão genético do rebanho, controle da sanidade animal, melhoria da qualidade das pastagens, adequação da dieta nutricional de vacas leiteiras e implantação de projetos de irrigação de gramíneas. Em 2017, a iniciativa passou a funcionar em rede, com a participação de 16 Unidades de pesquisa, em diversos estados.

O processo de formalização de parcerias para constituição de arranjos locais visando à execução das primeiras ações do projeto no Acre está em andamento. O trabalho terá a participação de produtores rurais dos municípios de Feijó, Acrelândia e Plácido de Castro. Para o analista da Embrapa Acre (Rio Branco), Márcio Bayma, um dos integrantes da equipe, o Balde Cheio é uma importante ferramenta de inclusão social, mas alguns estados da região Norte ainda enfrentam desafios para estruturar a cadeia do leite. Em Rondônia, pequenas propriedades se tornaram altamente produtivas, seguindo recomendações técnicas, mas os produtores de leite contam com um segmento consolidado.

“No Acre, o custo elevado da atividade, em função dos altos preços dos insumos, e as deficiências estruturais dificultam a incorporação de tecnologias para melhoria da eficiência produtiva. Apesar dessas limitações, a pecuária leiteira está presente em 70% das propriedades rurais do Estado, com predominância na produção familiar. Acreditamos que com o envolvimento dos produtores e apoio de outras instituições podemos alcançar bons resultados e que os desdobramentos dessa experiência inicial poderão atrair outros produtores para o projeto”, diz o analista.

Segundo André Novo, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste (São Carlos/SP) e líder do projeto em Rede, assim como em outros estados, em Rondônia os produtores e técnicos envolvidos com a produção leiteira no âmbito do Balde Cheio seguem um processo de transferência de tecnologias inovadoras, porém, paralelo a esse trabalho adotam práticas associativas como a compra conjunta de insumos. “Essa integração ajuda a otimizar esforços, reduz custos na produção e facilita o alinhamento com princípios e preceitos da produção intensiva, preconizados pelo Balde Cheio, além de demonstrar que as limitações podem se converter em experiências positivas”, ressalta o pesquisador.

Mudança no campo

Em cada propriedade um técnico do Balde Cheio acompanhou a equipe e apresentou dados detalhados das propriedades, da execução da atividade leiteira e da produção nos últimos 12 meses. Os resultados revelam performances variadas da produção leiteira em Rondônia e mostram como o projeto tem ajudado a mudar a vida no campo e a trajetória de produtores como o paranaense Valdemir Eugênio da Silva, que migrou para o município Ministro Andreazza, no ano 2000, para trabalhar na lavoura de café, mas sempre sonhou criar vacas leiteiras.

Desde que aderiu ao projeto, em 2016, a produção média por animal, na propriedade, saltou de 1,6 para 14,2 litros/dia. Com 14 vacas em lactação e apenas 1,5 hectare de pasto irrigado, são produzidos 200 litros de leite, diariamente.  “Renovamos o rebanho, melhoramos a pastagem, conseguimos atingir nosso objetivo inicial e o sonho cresceu. A meta agora é produzir 500 litros de leite/dia. Sei que vamos chegar lá”, diz Silva.

A propriedade do produtor Alceir Carneiro, em Rolim de Moura, chama a atenção pela rapidez na evolução da atividade. Em 2017 ele deixou o trabalho de diarista para investir na pecuária leiteira e, em um ano e oito meses de adesão ao projeto, a produção de leite aumentou 700%. No início, eram produzidos 20 litros de leite/dia, com produção média diária de 2,5 litros/vaca. Atualmente, são132 litros por dia e a produção por animal subiu para 10 litros/dia. “Ainda podemos crescer, mas já posso dizer que hoje tenho a vida que sempre sonhei porque não preciso mais sair de casa para trabalhar. A cada dia aprendemos mais sobre a atividade e assim vamos transformando a produção de leite em um negócio lucrativo e prazeroso”, destaca.

Participação da família

Para chegar a esse resultado, Carneiro conta com o envolvimento de toda a família na atividade. Com a ajuda da esposa (Maria), ele ordenha diariamente as 13 vacas em lactação e cuida da alimentação e saúde do rebanho, enquanto o filho (Alcimar) trabalha na adubação e manutenção das pastagens. Já a filha (Alcimara) é responsável pelas anotações do desempenho e custos da produção e outras informações relativas à gestão e controle financeiro da atividade leiteira.

“A participação da família é essencial para o desenvolvimento da atividade leiteira. Além do aumento da produtividade, o projeto busca recuperar a autoestima e dignidade dos produtores, por meio do aumento da renda e melhoria da qualidade de vida. As famílias passam a ter mais confiança nas tecnologias e no sistema produtivo e isso contribui para a permanência no campo”, afirma o pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, Arthur Chinelato, idealizador do Programa Balde Cheio, em 1998.

Protagonismo feminino

Outra característica marcante do projeto é o engajamento das mulheres na atividade leiteira. Nas propriedades familiares visitadas exemplos como o da produtora Jussara Adriana Farias da Silva, moradora de Vilhena, revelam o protagonismo feminino nos avanços da produção. Junto com o marido, Carlos Eduardo da Silva, ela cuida do rebanho e da gestão da propriedade, além das tarefas da casa. Em cinco anos de parceria com o projeto Balde Cheio, a produtividade elevou de 10 para 20 litros de leite por animal/dia. As 21 vacas em lactação produzem 420 litros de leite por dia, totalizando 150 mil litros do produto ao ano.

“Começamos a ordenha às quatro da manhã e seguimos durante todo o dia, alternando o trabalho na atividade produtiva, os afazeres do lar e os cuidados com a família. Conheço a propriedade como a palma da minha mão, sei o que precisa ser feito e quais as prioridades. Não existe uma fórmula a ser seguida, mas não podemos errar na atividade leiteira. Precisamos cuidar bem de todos os aspectos da produção e acompanhar o desempenho produtivo e reprodutivo dos animais para obter bons resultados. Nosso objetivo é chegar a mil litros de leite/dia. Temos muito trabalho pela frente, mas acreditamos que é possível”, enfatiza Jussara.

Tecnologia Compost Barn

Além de produtores familiares, o Balde Cheio acolhe parceiros do sistema empresarial rural. No município de Cacoal, a comitiva visitou a primeira propriedade do Brasil a adotar o sistema de Compost Barn a pasto aberto, área para descanso de vacas leiteiras que tem como base uma cama de serragem e esterco compostado, tecnologia que proporciona ambiente seco e conforto térmico para os animais. O produtor Juan Travain, parceiro do projeto desde 2015, também investiu em métodos de manejo de pastagens recomendados e na adequação da dieta alimentar do rebanho leiteiro. Como resultado, em três anos, a produção aumentou 370%, saindo de 280 litros de leite/dia para 1.020 litros diários, utilizados na fabricação de derivados do leite, na agroindústria instalada na própria fazenda.

“O Balde Cheio me ensinou a pensar diariamente como é produzir leite. Somos orientados sobre todas as ações necessárias para tornar a atividade eficiente, aprendendo o passo a passo de cada tecnologia. Manter a evolução da produção ainda é um desafio porque exige mão de obra contínua, mas é muito gratificante poder gerar emprego e renda para 25 famílias em apenas sete hectares de pastagem irrigada”, comenta o empresário.

Metodologia para diferentes realidades

O Brasil é o quarto produtor mundial de leite, com 35 bilhões de litros/ano, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). Estima-se que 1,4 milhão de produtores participam da atividade leiteira, com uma diversidade de sistemas de produção – do extensivo ao confinado – e variados níveis de incorporação de tecnologias nas propriedades.  De acordo com André Novo, a metodologia Balde Cheio pode ser aplicada a diferentes realidades, nas diversas regiões do País. A adoção de alternativas tecnológicas para intensificação da produção considera particularidades regionais.

“A partir do conceito de “Unidade Demonstrativa”, a propriedade rural funciona como “sala de aula” para aprendizados práticos na transferência de tecnologias, beneficiando todos os envolvidos no processo (pesquisadores, extensionistas e produtores). O compartilhamento das experiências pelos produtores, um dos requisitos básicos para participação no projeto, é importante para avaliarmos a adequação da metodologia em cada localidade”, afirma o pesquisador.

Para saber mais sobre o projeto, acesse o site https://www.embrapa.br/balde-cheio

Diva Gonçalves (Mtb-0148/AC)
Embrapa Acre

Press inquiries

Phone number: (68) 3212-3250

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