Rondônia,22/07/2019
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Terra Abençoada

Nos verdes pastos de Rondônia, milhões de litros de leite são produzidos e movimentam a economia de todo o estado

A cadeia produtiva do leite é uma das mais importantes no cenário econômico de Rondônia. O setor reúne aproximadamente 100 mil pessoas, que moram e trabalham em 32 mil propriedades rurais e estão diretamente ligadas à produção e comercialização do leite e derivados. O rebanho é um dos maiores do país. São 3,385 milhões de vacas que produzem cerca de 863 milhões de litros de leite por ano. Essa produção é destinada aos laticínios e agroindústrias, que empregam cinco mil pessoas e ajudam a fazer de Rondônia o maior produtor de leite da região Norte. A reportagem que publicamos a seguir mostra o trabalho realizado por alguns desses empreendedores, que buscam a cada dia superar os desafios da atividade com muito trabalho, tecnologia e criatividade.

Um salto de produtividade

A produção de leite é uma atividade normalmente desenvolvida por famílias de produtores rurais. Um exemplo são os irmãos Gilson e Gilberto da Silva Faria. No sítio Policarpo, em Colorado do Oeste, 27 vacas da raça Girolando produzem cerca de 360 litros de leite por dia. O rebanho dispõe de alimentação balanceada. As pastagens são divididas por piquetes rotacionados. As cercas são eletrificadas. A família de produtores participa do programa de melhoria da produção de leite no Cone Sul de Rondônia, desenvolvido pela Emater e Ifro, com apoio do Sicoob Credisul. “O projeto envolve a adoção de novas tecnologias, com ênfase na inseminação artificial do rebanho”, diz o zootecnista da Emater, Enio Roberto Milani. “Em menos de um ano do programa, a produtividade média na propriedade saltou de seis litros para mais de 17 litros por animal. A produção total do sítio, que era de 70 litros por dia antes do projeto, hoje é de mais de 360 litros diários”, confirma a gerente do escritório da Emater, Ana Paula Salviano. Participam 50 produtores de seis municípios do Cone Sul de Rondônia, que receberam, por meio do projeto, 500 vacas com genética de alta qualidade. Os produtores foram dotados de capacitação técnica e participaram de uma viagem para um dia de campo em propriedades de destaque em Minas Gerais e no Mato Grosso. “O Sicoob Credisul oferece todas as linhas de crédito rural disponíveis ao produtor, com taxas diferenciadas para aquisição de matrizes e melhorias nas propriedades”, destaca o superintendente da cooperativa, Luiz Teodoro Rodrigues. “Após o grande sucesso em seu primeiro ano, vamos manter a parceria no projeto em 2019”, confirma o diretor executivo do Sicoob Credisul, Vilmar Saúgo.

“O sistema de bonificação por qualidade e quantidade trouxe um grande impulso para a nossa indústria” Alessandro Sabino Rodrigues

Sistema de bonificação

A produção de queijo mussarela é a principal atividade do laticínio Jóia, de Ministro Andreazza. O laticínio também revende o creme do soro e o soro de leite para indústrias da região. Fundada em 2004, a unidade industrial processa atualmente 50 mil litros de leite diários fornecidos por cerca de 900 produtores. O laticínio se destaca por ter adotado, de forma pioneira no estado, um programa de qualidade que remunera o produtor que adota as boas práticas de produção. “O sistema de bonificação por qualidade e quantidade trouxe um grande impulso para a nossa indústria. Registramos um crescimento médio anual de 25% após a adoção do programa, em 2015”, confirma o sócio-administrativo Alessandro Sabino Rodrigues. Por esse sistema, o produtor recebe até oito centavos a mais por litro de leite. O cálculo é feito de acordo com índices de qualidade e de quantidade produzida, a partir de normas que devem ser adotadas na propriedade. A parceria inclui o fornecimento de diversos produtos agropecuários sem custo aos produtores parceiros, além da cessão de máquinas e equipamentos para executar obras nas fazendas, e até benefícios como planos de saúde médicos e odontológicos para as famílias parceiras. Alessandro Sabino Rodrigues faz questão de agradecer a parceria com a cooperativa Sicoob Credip, em Ministro Andreazza. “Temos toda nossa movimentação financeira com o Sicoob Credip, a cooperativa é a grande parceira dos produtores da região”, confirma.

Genética aprimora raça

Em Porto Velho, a fazenda Bemtivi Vitrine, do médico e produtor rural Luiz Carlos de Oliveira, desenvolve o aprimoramento da raça Gir Leiteiro, por meio de touros provados e de matrizes de alto potencial genético. A propriedade utiliza alta tecnologia, através de métodos de melhoramento do rebanho leiteiro, como a inseminação artificial e a fertilização in vitro. As técnicas adotadas garantem maior rapidez no aumento do rebanho, uma vez que vacas leiteiras comuns, as chamadas “barrigas de aluguel”, recebem os embriões previamente selecionados. A propriedade também comercializa o material genético para o melhoramento de rebanhos em todo o estado. Além de adquirir as novilhas prenhes, o comprador pode encomendar filhos de animais da propriedade. “Por exemplo, se um produtor tiver interesse em receber cinco filhos de uma determinada vaca da fazenda, ele pode optar por levar os embriões para inseminar animais no curral de sua propriedade, ou então fazer sua encomenda e posteriormente levar a vaca e os bezerros para a sua propriedade”, diz Luiz Carlos Oliveira. “Posso citar o exemplo de um touro muito famoso. A dose do sêmen sexado desse touro ultrapassa o valor de R$ 30 mil. Mas, com essa dose de sêmen, é possível gerar 50 bezerros. Então você dilui esse custo e tem a possibilidade de criar animais de alto potencial genético para produção leiteira, por um valor acessível ao produtor rural”, explica.

Projeto Piraleite

A fazenda Bemtivi Vitrine também é inovadora em seus projetos de manejo. Um exemplo é o projeto “Piraleite”, que combina a criação do peixe pirarucu e do gado leiteiro. “A água contendo os dejetos do pirarucu criado em tanques de lona é utilizada como fertilizante do pasto, num processo conhecido como fertiirrigação”, destaca Oliveira. O projeto com o pirarucu já completou três anos. São quatro tanques capazes de produzir de cinco a seis toneladas de peixe por ano. Os nutrientes da ração, rica em fósforo e nitrogênio, servem como fertilizante para a pastagem. A fertiirrigação se destaca principalmente no período de seca. São 300 mil litros de água que irrigam seis hectares de capim mombaça. “O mombaça é um tipo de capim que apresenta maior teor de nutrientes para o gado leiteiro”, explica o gerente da fazenda, Luiz Camargo Iliano. A área é dividida em 28 piquetes e alimenta de 10 a 15 cabeças por hectare. “A fazenda produz em seis hectares o mesmo que uma propriedade dez vezes maior”, calcula o veterinário Carlindo Maranhão, responsável técnico pelo projeto. “Reduzimos o custo com adubação entre 50% e 70%”, diz. O projetopiloto, que também conta com a parceria técnica da Embrapa Amazônia, deverá ser estendido a outras propriedades no futuro. “O foco está na agricultura familiar”, conclui Maranhão.

Ganhador de prêmios

O produtor rural Eteny Silva Sobrinho, de Ouro Preto do Oeste, trabalha com gado leiteiro há mais de 35 anos. Ganhador de diversos concursos leiteiros com vacas produtoras de até 40 quilos por dia, Eteny explica que a atividade “está no sangue”. “São muitos anos, hoje tenho comércio na cidade, mas a criação do gado de leite é uma paixão”, explica. No sítio Boa Sorte, de 40 alqueires, Eteny conta com um rebanho de 250 cabeças, sendo 55 do gado de leite. “Hoje temos 35 vacas em lactação, produzindo 250 litros por dia, em média de sete litros por animal, tratadas exclusivamente a pasto e sal mineral”, conta. “Utilizamos o gado Girolando, que possui robustez e boa produtividade”. Eteny é um dos sócios-fundadores da cooperativa Sicoob Ourocredi. “São mais de vinte anos desde o início da cooperativa, que está mais forte e atuante a cada dia, apoiando os produtores rurais em tudo, só temos coisas boas para falar do Sicoob Ourocredi”, confirma.

Mais qualidade, maior quantidade

Atualmente, mais de 75% de toda a produção industrial de leite e derivados de Rondônia é comercializada nos mercados de São Paulo e de Manaus, enquanto os 25% restantes são destinados ao consumidor rondoniense. As mais de 20 indústrias de laticínios existentes no estado processam em média 2,364 milhões de litros de leite por dia. Boa parte dessa produção resulta no processamento do queijo tipo mussarela, gerando uma receita anual de R$ 700 milhões para a economia do estado.

Hotel cinco estrelas para as vacas

O bem-estar animal é a regra na propriedade de Juan Travain de Souza. E as vacas sabem retribuir muito bem o tratamento recebido. Numa área de apenas 7,2 hectares, as 67 vacas em lactação produzem a excelente média de mil litros de leite todos os dias. São dois lotes de animais, com médias de 16 e 22 litros por vaca, e picos diários que chegam a 26 litros. Ali, tudo é rigorosamente planejado e controlado. A diferença começa no local onde fica a propriedade, bem na entrada do Cacoal Selva Park, famoso complexo de turismo e eventos que recebe visitantes de todo o país durante o ano inteiro. “Nosso sítio pode bem vir a se tornar um local para interessados em fazer turismo rural”, brinca Juan. A produção leiteira teve início em 2009. Mas nos cinco anos seguintes faltava alguma coisa para o negócio se tornar rentável. “Em 2015, entramos no programa Balde Cheio, da Embrapa, e tudo mudou, para melhor”, lembra Juan. A fazenda passou a trabalhar em três passos: melhoria da alimentação, conforto dos animais e genética do rebanho. “Houve uma melhoria muito grande na qualidade da forragem. A oferta de volumoso, com piquetes no pasto, teve grande evolução. Tudo isso aliado ao controle dos índices zootécnicos da propriedade. Melhorou a qualidade do leite e reduziram os nossos custos”, comemora Juan. A alimentação – com farelo de soja, milho e núcleo – é processada dentro da fazenda. As vacas ficam debaixo de uma cobertura, protegidas do forte sol da Amazônia e com água à vontade, direto de uma mina natural. O piso é um composto de maravalha, que oferece higiene aos animais e ainda serve como excelente adubo para a pastagem. O rebanho é de genética diferenciada – basicamente das raças Gir Leiteiro, Jersey e Holandês, em cruzamentos geneticos que favorecem a adaptação ao clima e a alta produtividade. A qualidade da ordenha também chama a atenção: de medidores individuais a papel toalha para limpar os úberes, tudo é anotado e planejado. “Somos a primeira propriedade de Rondônia a solicitar ao Idaron o certificado de livre de aftosa, brucelose e tuberculose”, se orgulha Juan. Toda a produção de leite é industrializada dentro da propriedade. A agroindústria produz diariamente 700 litros de iogurte com frutas, totalmente natural, sem conservantes. O produto é comercializado nos principais mercados consumidores de Rondônia. A agroindústria também produz leite pasteurizado. “Agradeço o apoio da cooperativa Sicoob Credip, onde nos sentimos verdadeiros donos e parceiros, uma instituição que nos incentiva a cada dia a buscar o nosso melhor”, finaliza Juan.

Fonte: Revista sociosenegocios.com.br

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